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Como normas, desempenho e gestão de risco moldam a próxima década — na visão de Vinicius Miranda (UL Solutions)
Bem‑vindos à primeira edição da TechTalks CPVC, uma newsletter criada para aprofundar discussões sobre tecnologia, desempenho, normas, tendências e desafios que impactam diretamente projetos, obras e a indústria da construção. A proposta é clara: reunir especialistas de diferentes segmentos para conversas francas, técnicas e contemporâneas sobre temas que influenciam diretamente o setor.
Nessa edição, conversamos com o Vinicius Miranda, Senior Sales Representative na UL Solutions, sobre como a certificação tem influenciado o cenário brasileiro de segurança, qualidade e conformidade. Para ele, o avanço das normas técnicas e o amadurecimento do mercado tornam a certificação um elemento estruturante na gestão de risco — especialmente em setores onde falhas simplesmente não podem ocorrer.
A certificação de produtos vem ganhando protagonismo no Brasil por funcionar como “um instrumento técnico de confiança, capaz de reduzir assimetrias de informação em um mercado complexo e regionalmente fragmentado”. O país se diferencia pelo volume e detalhamento de normas nacionais, muitas delas inspiradas em padrões internacionais. Porém, esse avanço também cria desafios de harmonização global, sobretudo quando comparado a mercados onde referências como NFPA, ISO ou UL já são amplamente consolidadas.
Certificação como base de responsabilidade técnica
Em áreas críticas como segurança contra incêndio, a certificação deixa de ser diferencial para se tornar requisito básico. Vinicius explica que “um sprinkler, uma porta corta-fogo ou um detector só aparecem quando ocorre um incêndio”, e justamente por isso não há espaço para riscos. A certificação garante que produtos e sistemas foram ensaiados, auditados e monitorados de forma contínua, dentro de critérios rigorosos e reconhecidos. Diferentemente de laudos isolados, que refletem apenas o resultado de um teste pontual, a certificação envolve auditorias de fábrica, controle de produção e verificação de mudanças ao longo do ciclo de vida do produto.
Maturidade, heterogeneidade e barreiras culturais
Quando comparado a mercados como EUA, Canadá ou Europa, o Brasil ainda apresenta uma maturidade intermediária. A ausência de um código nacional de construção civil amplia a heterogeneidade e cria desafios para a padronização. Vinicius observa que esse cenário “eleva custos indiretos e aumenta a complexidade regulatória”, exigindo esforço contínuo de harmonização.
Ele também aponta barreiras culturais que retardam a adoção de produtos certificados, como foco excessivo no menor preço, percepção equivocada sobre o custo da certificação e desconhecimento sobre impactos em seguros, responsabilidade civil e desempenho real em incêndios. Em muitos casos, decisões técnicas são tomadas com base apenas no preço inicial, sem considerar consequências futuras. “Decisões puramente baseadas em preço transferem o risco para o futuro”, alerta.
Mitos e realidade sobre custo e acessibilidade
Entre os mitos mais comuns, Vinicius cita a ideia de que a certificação encarece o produto de forma significativa. Segundo ele, o custo é irrisório quando diluído na vida útil de uma edificação. O principal desafio, na prática, é planejar o processo desde a concepção do produto — não tratá-lo como etapa final.
O mesmo vale para startups e empresas de menor porte. Embora muitos acreditem que a certificação seja inacessível, na verdade “o principal obstáculo não é financeiro, mas sim técnico”. Quando encarada como parte da estratégia desde o design, ela se torna uma ferramenta de credibilidade, acelera acesso a mercados e reduz retrabalho regulatório.
Entendimento do mercado e necessidade de educação técnica
Para Vinicius, o entendimento sobre certificação ainda varia muito entre os profissionais do setor, gerando confusões importantes — principalmente entre ensaios pontuais, laudos técnicos e certificação. Ele observa que ainda é comum que produtos sejam apresentados como “certificados” quando, na realidade, possuem apenas um laudo válido para uma amostra específica. Essa percepção limitada faz com que decisões técnicas sejam tomadas a partir de documentos insuficientes, sem considerar a necessidade de auditorias, acompanhamento produtivo e manutenção contínua do desempenho ao longo do tempo.
Vinicius destaca também que parte dessa lacuna está relacionada à formação técnica e à forma como normas são lidas e aplicadas. Muitas vezes, prevalece uma interpretação literal dos textos normativos, com pouca compreensão sobre desempenho, equivalência técnica e gestão de risco. Nesse cenário, universidades e entidades de classe têm papel fundamental em ampliar a visão dos profissionais, promovendo conhecimento atualizado e ajudando o mercado a compreender — de forma mais clara e responsável — o rigor e o propósito da certificação.
Tendências e futuro da certificação
Olhando para os próximos anos, Vinicius destaca tendências que devem transformar a forma como sistemas de segurança contra incêndio são avaliados: construções modulares, industrialização, crescimento de data centers, IoT aplicada a edificações e uso ampliado de simulações computacionais combinadas com ensaios físicos. Esses movimentos exigem que a certificação evolua para modelos mais baseados em desempenho e avaliando sistemas completos, não apenas componentes isolados.
Eventos extremos, como incêndios urbanos e florestais e ondas de calor, também deverão acelerar exigências regulatórias, especialmente para materiais de fachada, isolamento e edifícios críticos, como data centers, hospitais e instalações logísticas. A pressão por alinhamento entre normas nacionais e internacionais tende a crescer.
Responsabilidade, conformidade e cooperação
Por fim, Vinicius deixa uma mensagem clara: “segurança contra incêndio não deve ser tratada como item opcional nem negociável”. Para ele, conformidade técnica e responsabilidade profissional são pilares que impactam vidas e patrimônio, e a escolha por produtos certificados reforça essa postura preventiva. Vinicius destaca que a certificação não substitui projeto, instalação ou manutenção, mas fortalece todo o sistema ao reduzir incertezas.
Avançar nesse caminho exige cooperação entre indústria, projetistas, entidades técnicas, universidades e organismos de certificação, sempre com foco na redução de riscos e na proteção das pessoas.
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