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O INCÊNDIO MUDOU — E A ENGENHARIA PRECISA ACOMPANHAR ESSA EVOLUÇÃO

Por que projetar com base no incêndio real se tornou uma exigência de segurança

 

Nas últimas décadas, o comportamento do incêndio em edificações passou por uma transformação profunda, diretamente associada à evolução dos materiais e dos sistemas construtivos. Para Debora Arjona, especialista em engenharia de incêndios e instrutora oficial da NFPA no Brasil, compreender essa mudança deixou de ser apenas um tema acadêmico e passou a ser um fator crítico de segurança.

“O comportamento do incêndio mudou de forma significativa principalmente devido à introdução massiva de materiais sintéticos, como polímeros e compósitos”, explica. Segundo ela, esses materiais, amplamente utilizados hoje em mobiliários, acabamentos e sistemas construtivos, apresentam maior potencial energético associado e, principalmente, elevadas taxas de liberação de calor (HRR), liberando energia de forma muito mais rápida.

O resultado são incêndios com crescimento acelerado, maior intensidade térmica e produção intensa de gases tóxicos. Soma-se a isso o fato de que muitos sistemas construtivos modernos são mais leves e têm menor inércia térmica, favorecendo colapsos estruturais mais precoces.

Essa realidade contrasta fortemente com os incêndios do passado. “Incêndios com predominância de materiais naturais apresentavam crescimento mais lento, maior previsibilidade e menor toxicidade dos gases”, lembra Debora. Em edificações modernas, no entanto, o cenário é outro: ignição mais rápida, flashover precoce, elevada taxa de crescimento do incêndio e fumaça densa e altamente tóxica, reduzindo drasticamente o tempo disponível para evacuação e para a atuação das equipes de emergência.

Diante dessa mudança de perfil, a forma de estudar o incêndio também precisou evoluir. De acordo com a especialista, houve um avanço significativo com a ampliação de ensaios em escala real, o uso de modelagens computacionais (CFD) e a adoção de abordagens baseadas em desempenho. “Hoje, a compreensão do incêndio vai além de testes laboratoriais isolados, incorporando cenários reais, a interação entre sistemas e o comportamento global da edificação”, destaca.

Nesse contexto, muitos dos testes tradicionais deixaram de representar fielmente o incêndio moderno. Desenvolvidos com base em materiais e cenários antigos, eles precisaram ser adaptados para considerar cenários com maiores taxas de liberação de calor, ventilação mais realista e interação entre sistemas. “Ensaios mais representativos passaram a ser fundamentais para refletir o comportamento atual do fogo”, afirma.

Naturalmente, essa evolução impactou diretamente os critérios de teste e certificação. Para Debora, não há dúvidas de que as edificações modernas exigem regras mais rigorosas e atualizadas. “A complexidade dos incêndios atuais demanda critérios baseados em desempenho e não apenas prescritivos”, pontua. Hoje, avaliar um material isoladamente já não é suficiente — é preciso entender seu comportamento dentro do sistema e em condições reais de incêndio.

Esse cenário impõe desafios importantes para projetistas e engenheiros. “O principal desafio é acompanhar a velocidade dessa evolução”, alerta. Incêndios mais rápidos e complexos exigem mais conhecimento técnico, integração entre disciplinas e domínio de ferramentas avançadas de simulação e análise. Além disso, há o desafio de aplicar normas que, em muitos casos, ainda não refletem totalmente a realidade atual das edificações.

Os sistemas de proteção ativa também precisaram se adaptar. Segundo Debora, sprinklers e sistemas de detecção passaram a exigir respostas mais rápidas e maior eficiência. O dimensionamento considera hoje taxas de crescimento do incêndio mais elevadas, dispositivos de resposta rápida (quick response) e integração com sistemas inteligentes. Em determinados cenários, tecnologias como sprinklers de supressão (ESFR) tornam-se essenciais para controlar incêndios de alta severidade.

Projetar considerando o comportamento real do incêndio moderno muda completamente a abordagem do projeto. “Muda praticamente tudo”, resume. Desde o dimensionamento hidráulico até as estratégias de compartimentação e controle de fumaça, tudo precisa ser pensado para cenários mais severos, com maior demanda de água, respostas mais rápidas e integração entre proteções ativas e passivas.

Apesar disso, ainda existem projetos que subestimam o comportamento real do incêndio. Para Debora, os riscos são elevados: “Falha dos sistemas de proteção, propagação rápida do incêndio, colapso estrutural e, principalmente, perda de vidas”. Subestimar o incêndio hoje, segundo ela, é um erro crítico que compromete toda a segurança da edificação.

Olhando para o futuro, diversas tendências internacionais ainda devem ganhar espaço no Brasil, como o maior uso de projetos por desempenho, a integração entre BIM e simulações de incêndio, sistemas inteligentes de detecção e supressão e soluções voltadas a novos riscos, como baterias de íons de lítio e data centers. Para acelerar essa adoção, Debora reforça a importância de atualizar normas, exigir certificações e investir continuamente na capacitação técnica dos profissionais.

Nos estudos de incêndio, o futuro aponta para uma engenharia cada vez mais orientada por dados. “A integração entre modelagem computacional, inteligência artificial e ensaios reais será essencial”, afirma. Isso permitirá análises mais precisas e soluções personalizadas para cada tipo de edificação e risco.

Para finalizar, Debora deixa um recado direto e contundente aos engenheiros e projetistas: “Não projetem para atender norma — projetem para atender o comportamento real do incêndio. A norma deve ser o mínimo, não o objetivo final”.

Segundo ela, confiar exclusivamente em requisitos prescritivos pode levar a uma falsa sensação de segurança, especialmente diante de incêndios cada vez mais rápidos, complexos e severos. Entender como o fogo realmente se comporta dentro de uma edificação moderna é essencial para tomar decisões de projeto mais conscientes e eficazes.

Para Debora, a engenharia de incêndio precisa ir além do cumprimento formal das normas e incorporar uma visão mais ampla de risco, desempenho e integração entre sistemas. Compreender a dinâmica do fogo, a influência dos materiais e a resposta dos sistemas de proteção ativa e passiva é o caminho mais seguro para proteger vidas, preservar patrimônios e garantir edificações verdadeiramente resilientes ao fogo.

 

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